Política de frete é decisão de margem, não de logística. Ela decide conversão em quatro pontos: quando o custo é revelado (tarde derruba mais venda do que caro), qual é a faixa de frete grátis (que sai da margem de contribuição em reais, não do que o concorrente anuncia), qual prazo está na página (o que a operação cumpre, não o otimista) e como cada região é tratada.
Frete costuma ser tratado como assunto de logística: cotação de transportadora, contrato, tabela, integração. Aí ele aparece na reunião de marketing só quando a conversão cai.
A decisão real é outra. A política de frete define quanto de cada pedido você abre mão para conseguir a venda, em que momento essa informação chega ao cliente e quais regiões do país você está disposto a atender pagando por isso. Isso é decisão de margem, e ela é tomada quase sempre no olho, olhando o que a loja do lado anuncia.
Por que o frete calculado tarde mata mais venda que o frete caro?
Porque o que quebra a compra não é o valor, é a ordem em que a informação aparece.
A pessoa monta o pedido com um número na cabeça. Escolheu produto, comparou variação, decidiu quantidade. Quando o custo total muda no último passo, a reação não é “está caro”. É “isso estava escondido”. E quem se sente enganado não negocia: fecha a aba e não volta.
Existe um custo escondido nessa escolha que quase nunca entra na conta: a visita que chega ao checkout é a mais cara que a loja teve no dia, porque já pagou mídia, navegação e decisão. Perder ali é perder no ponto mais caro do funil, e o detalhamento dessa perda está em checkout de e-commerce e nas causas de abandono de carrinho.
Frete caro revelado cedo perde algumas vendas e mantém a confiança. Frete caro revelado tarde perde a venda e a próxima. A calculadora por CEP na página de produto não é recurso de usabilidade: é a diferença entre uma objeção que você trata e uma que você leva na cara no pior momento possível.
Como calcular a faixa de frete grátis a partir da margem?
A faixa costuma nascer de um número redondo ou de um print da loja concorrente. Os dois caminhos ignoram a única variável que decide: quanto sobra do seu pedido.
O ponto de partida é a margem de contribuição em reais, não em percentual. Percentual bonito não paga transportadora.
Os números abaixo são ilustrativos e servem só para mostrar a mecânica. Suponha um pedido de R$ 180 com 40% de margem de contribuição, ou seja, R$ 72 em reais. Suponha um frete médio de R$ 28 para a região que concentra a maior parte dos pedidos. Liberar frete grátis nesse valor deixa R$ 44 de contribuição. Se o custo de aquisição desse pedido for de R$ 35, sobram R$ 9 para cobrir custo fixo, e a operação está trabalhando de graça.
A pergunta certa não é “qual valor parece atraente”. É: a partir de qual valor de pedido a venda continua contribuindo depois de absorver o frete inteiro e o custo de aquisição.
Três correções que aparecem com frequência quando essa conta é feita pela primeira vez:
Use o custo médio ponderado, não o mais barato. Se 60% dos pedidos vão para uma região barata e 40% para uma cara, a média que importa é a ponderada. Calcular a faixa com o frete da capital mais próxima e entregar no país inteiro é errar por baixo em quase metade dos pedidos.
Coloque a faixa acima do seu ticket atual, e alcançável. Faixa igual ao ticket médio significa pagar frete por pedidos que aconteceriam do mesmo jeito. Faixa muito acima só serve para frustrar. O alvo é um valor que a pessoa alcance adicionando um item, e essa é a leitura de frete como alavanca de ticket médio.
Recalcule quando o custo mudar. Reajuste de tabela, troca de transportadora e mudança no mix de produtos mexem na conta. Faixa definida uma vez e esquecida vira subsídio crescente que ninguém decidiu conceder.
Frete grátis irrestrito é subsídio inteligente ou buraco no caixa?
Depende de uma coisa só: se existe algo que devolva o dinheiro.
| Situação | Frete grátis irrestrito | Por quê |
|---|---|---|
| Compra única, margem apertada | Buraco | O custo cresce junto com o volume e não volta |
| Produto com recompra alta | Pode compensar | O subsídio da primeira compra volta nos pedidos seguintes |
| Assinatura ou clube | Costuma compensar | O custo é conhecido e diluído no contrato inteiro |
| Ticket alto com margem folgada | Neutro a positivo | O frete pesa pouco no pedido |
| Item pequeno e barato, avulso | Buraco | O frete pode passar da margem do produto |
| Lançamento ou ação com prazo | Aceitável | É investimento com data para acabar, e não regra permanente |
O agravante do irrestrito é que ele piora exatamente quando a operação vai bem: mais volume, mais frete pago, margem menor no mês de melhor faturamento. Quando ele é usado como subsídio consciente de aquisição, a conta que fecha é a do LTV, não a do pedido isolado. Sem recompra medida, isso é torcida, não estratégia.
Por que o prazo converte tanto quanto o preço?
Porque para boa parte das compras o prazo é o que decide se aquele pedido resolve o problema da pessoa.
Presente com data, reposição de item que acabou, compra para uma viagem: nesses casos o prazo não é detalhe, é requisito. E “de 3 a 15 dias úteis” não informa nada. É uma faixa larga o suficiente para a pessoa assumir o pior cenário e ir procurar em outro lugar.
Prazo também é o argumento que mais diferencia loja própria de marketplace no D2C. Se você não vai ganhar em velocidade, precisa ganhar em clareza: dizer o prazo real, dizer por que ele é o que é, e deixar a escolha de pagar mais por rapidez na mão de quem compra em vez de decidir por ela.
Prazo real ou prazo otimista: o que colocar na página?
O real, e a diferença entre os dois não é filosófica, é financeira.
Prazo otimista aumenta a conversão de hoje e cobra depois: mensagem no atendimento, reclamação pública, pedido de cancelamento, avaliação negativa e um cliente que não volta. Em operação D2C, que vive de recompra, isso é trocar receita futura por conversão presente com uma taxa de juros ruim.
O caminho honesto é medir o prazo que você cumpre de fato, por região, e publicar esse número. Se a operação não sabe qual é, isso já é o primeiro achado: o percentual de pedidos entregues dentro do prazo prometido, por praça, costuma ser a informação que muda a política de frete inteira.
Prazo longo explicado converte melhor que prazo longo descoberto. Produto sob encomenda, produção artesanal ou item importado podem ter prazo grande sem prejudicar a venda, desde que a página diga isso antes e explique o motivo. O que derruba é a surpresa, de novo.
O que fazer com a região que você atende mal?
Toda operação tem uma. E a política única de frete faz uma coisa silenciosa: usa a margem da região que você atende bem para subsidiar a que atende mal.
Vale olhar por praça três números: custo médio de frete, prazo cumprido e taxa de conversão. Onde o custo é alto e o prazo é ruim, a conversão costuma ser baixa e a margem do pedido, pior ainda. Investir mídia ali com o mesmo peso das outras regiões é comprar o pedido mais caro da operação.
As saídas possíveis são poucas e todas exigem decisão, não ajuste de campanha: faixa de frete grátis diferente por grupo de regiões, prazo declarado com honestidade nas praças em que a transportadora é ruim, transportadora regional adicional para as praças que valem o esforço, ou aceitar conscientemente que aquela região é atendida com margem menor porque ela abre mercado. O que não funciona é fingir que o país inteiro tem o mesmo custo, e essa camada faz parte da estrutura de e-commerce que precisa estar de pé antes de a mídia escalar.
O que fica
Frete é decisão de margem que se disfarça de decisão de logística, e ela aparece na conversão em quatro pontos: quando o custo é revelado, qual é a faixa de frete grátis, qual prazo está na página e como cada região é tratada.
Revele frete e prazo antes do checkout, calcule a faixa a partir da margem de contribuição em reais e do custo ponderado por região, trate frete grátis irrestrito como subsídio que só se justifica com recompra, e publique o prazo que a operação cumpre em vez do prazo que ela gostaria de cumprir.
Quem faz essa revisão costuma encontrar duas coisas ao mesmo tempo: uma faixa de frete grátis abaixo do que a margem aguentaria, deixando venda na mesa, e uma região sendo atendida com prejuízo há meses sem que ninguém tivesse tomado essa decisão.
O que fica
- Frete revelado tarde derruba mais venda do que frete caro. O problema não é o valor, é a ordem em que a informação aparece.
- A faixa de frete grátis sai da margem de contribuição em reais do pedido, não de um número redondo nem do que o concorrente anuncia.
- Frete grátis irrestrito é subsídio, e subsídio só se justifica quando existe recompra que devolva o dinheiro. Sem isso, ele piora justo no mês em que você vende mais.
- Prazo é variável de conversão tão forte quanto preço, e prazo otimista compra a venda de hoje pagando com o pedido de troca de amanhã.
- Uma política de frete única para o país inteiro subsidia a região que você atende mal com a margem da região que você atende bem.
Perguntas frequentes
Qual o valor ideal da faixa de frete grátis?
Não existe valor ideal de mercado, existe o valor que a sua margem sustenta. Pegue a margem de contribuição em reais do pedido, subtraia o custo real de frete que você paga para a região que mais vende, e veja a partir de qual valor o pedido continua contribuindo depois de absorver esse frete e o custo de aquisição. Copiar a faixa do concorrente é copiar a estrutura de custo dele, que você não conhece.
Frete grátis aumenta a conversão?
Aumenta a conversão e pode reduzir o resultado ao mesmo tempo, e as duas coisas acontecem juntas com frequência. Ele funciona quando o custo do frete cabe na margem do pedido ou quando existe recompra que devolva o subsídio ao longo do tempo. Em compra única, com margem apertada e sem faixa mínima, ele é desconto permanente com outro nome.
Onde mostrar o frete na loja?
Na página de produto, com cálculo por CEP, e de novo no carrinho. Esconder o valor até o último passo do checkout não evita a objeção, apenas adia para o ponto em que a desistência custa mais caro, porque a visita já foi paga e a pessoa já investiu tempo montando o pedido.
Vale a pena prometer um prazo mais curto para vender mais?
Não. Prazo otimista aumenta a conversão de hoje e cobra a conta depois, em atendimento, reclamação, pedido de cancelamento e avaliação negativa. Prazo maior explicado na página converte melhor do que prazo curto descoberto como mentira depois da compra, principalmente em loja que depende de recompra.
Devo ter política de frete diferente por região?
Se o seu custo de entrega varia muito por região, e no Brasil ele varia, a política única transfere margem da região que você atende bem para a que atende mal. Vale ao menos separar a faixa de frete grátis por grupo de regiões e ser honesto no prazo das praças em que a transportadora é ruim, em vez de vender rápido em lugar onde você não entrega rápido.
Equipe Metris
Estratégia, mídia, dados e conteúdo
O time da Metris, assessoria de marketing de performance com mais de 18 anos de experiência: estratégia, mídia paga, CRM, dados e CRO trabalhando juntos para fazer empresas venderem mais, com margem. Os textos saem das contas que a gente opera, e nenhum número entra sem origem.